Sobre EducaçãoTornou-se difícil escrever sobre Educação. O que se tem dito e escrito nestes últimos tempos ultrapassou os limites do senso, do bom-senso e até do mau, se é que existe.
As motivações são das mais diversas: em defesa da Escola Pública e da qualidade de ensino; em defesa dos direitos de uma classe profissional ou contra os seus privilégios (?); para marcar uma posição contra ou a favor do Governo; para justificar benesses de que usufruem ou ambicionam vir a usufruir; subserviência, pura e simples.
Muitas pessoas alheias ao nosso contexto educativo, condicionadas por um alinhamento ou desalinhamento político, expressando opiniões descabidas e utilizando a Educação como pretexto para a prática de política barata.
Falam de Educação sem saberem do que falam, pois alguns dos seus discursos revelam que nunca a conheceram nem dela ouviram falar. Gente importante, até!
Sinal de que o barómetro educativo entrou numa red zone.
Acrescentar alguma coisa de novo não é fácil. Mas agora que muita poeira assentou, também o Pescador quer dizer algo de sua justiça acerca de 2 ou 3 tópicos mais controversos, tenha ou não sido dito e escrito. Assim que, aí vai.
Aprendizagem e disciplinaImagine que vai ao barbeiro. Suponha que ele dispõe de 90 minutos para lhe cortar a barba e o cabelo. Concebe que ele esteja 50 minutos a convencê-lo para se sentar na cadeira? E se for ao restaurante? Põe-se a andar por cima das mesas e a empilhar cadeiras, até que o empregado o convença a sentar-se? E depois de se sentar diz-lhe “Engraxe-me os sapatos; olhe, e já que aqui estou aproveito e faço também a mudança de óleo na viatura”?
Alguns (!) dos nossos alunos entram numa sala de aula e parecem não saber para onde vão. Os seus comportamentos, por mais díspares que sejam, apresentam no entanto um traço comum: não querem aprender nem sujeitar-se às suas regras de funcionamento. Condicionam só por si o trabalho com os restantes alunos.
Ao iniciar o ano lectivo nestas turmas tenho muitas dificuldades em criar um clima propício às actividades de ensinar e aprender. Penso que não deveria ser assim. Não digo que sou, ou que quero ser, um mero transmissor de conhecimentos. Digo que qualquer professor deveria entrar numa turma e ter as condições mínimas necessárias para exercer a sua profissão. Como qualquer funcionário de uma repartição de finanças, como um operário de uma linha de produção, como um médico ou como um trabalhador da construção civil.
Todos temos uma quota-parte de responsabilidade em fazer aceitar aos nossos alunos um nível de disciplina que permita um harmonioso decorrer das actividades lectivas. O Ministério da Educação, através da política educativa que deverá conter orientações e propor a aplicação de medidas nesse sentido, expressando um forte alerta às famílias e um forte incentivo aos órgãos de gestão das escolas. Os órgãos de gestão das escolas em implementar de forma consistente essas medidas. Os professores, dirimindo pequenos conflitos susceptíveis de serem aceites no contexto das turmas.
Curiosamente toda, ou quase toda, esta responsabilidade cai sob a alçada do professor no exercício da sua actividade docente. Quão grande e forte é o professor. Quando a sua intervenção, colocado como está na base da pirâmide, deveria ser mínima e fácil.
Interrogo-me, com todos os nossos jovens que evidenciam comportamentos disfuncionais (o actual sistema não proporciona vias alternativas de inclusão), e com os nossos jovens portadores de graves dificuldades de aprendizagem que a breve trecho serão incluídos no ensino “regular” (prevê-se a extinção da actual via alternativa de inclusão), como irão ser as turmas do futuro?
Há problemas nas escolas que não podem ser resolvidos com computadores!
O dever de aprenderA função essencial do professor é ensinar; a do aluno é aprender. Mas aprender dá trabalho. Custa. E o estudante tem o dever de aprender e de desenvolver esforço nesse sentido.
Mas, deixem-me expressar assim, porque será que actualmente os professores têm o dever de ensinar Língua Portuguesa, matemática, física e outras disciplinas, para o aluno aprender sem esforço, agarrado ao seu telemóvel e com os auscultadores do leitor de MP3 nos ouvidos?
Estou farto, mas mesmo muito farto de ouvir que sou responsável por os meus alunos não adquirirem mais competências no tempo que passam comigo. E porque raio é que só ouço falar de ter de me esforçar mais para ensinar melhor e nunca ouço falar do dever de aprender por parte dos meus caros e estimados alunos?
Avaliação dos professoresO modelo de avaliação está de patas para o ar. No sentido literal da expressão. Esta é a minha opinião.
Atente-se no modelo belga, sucintamente descrito numa reportagem televisiva há bem pouco tempo: são analisados os resultados de um estabelecimento de ensino; se existirem evidências de resultados que não estejam em conformidade com os medianamente aceitáveis a análise vai incidir sobre cada uma das disciplinas, visando apurar a origem das discrepâncias detectadas; a partir daí, e for caso disso, analisam-se os resultados dos professores, em particular, tentando averiguar sobre as causas dos factos e agindo de forma correctiva.
Numa auditoria contabilística, fiscal, ou qualquer outra, adoptamos idênticos procedimentos. Por exemplo, seleccionamos um número de facturas emitidas por uma empresa (amostra definida e recolhida com base em critérios científicos); se nenhuma delas apresentar vícios de forma e conteúdo podemos até analisar uma outra pequena amostra para certificarmos a validade dos resultados obtidos; apenas se encontrarmos irregularidades avançamos, alargando o âmbito do nosso trabalho para ajuizar da extensão e gravidade dos erros cometidos.
São as boas práticas que o determinam!
O modelo de avaliação proposto (ou imposto) assenta numa análise exaustiva do trabalho de cada professor: participação na vida escolar, prática lectiva (nas vertentes de planificação e execução), formação, e um sem fim de parâmetros mais, destacando-se o facto de a bons ou maus resultados obtidos com as turmas corresponderem mais ou menos pontos favoráveis ao professor.
Ser avaliado pelo chefe, pelo subchefe, não esquecendo a auto-avaliação, …
Complicado! Complicado! … Burocratização? Morosidade? Desperdício de recursos? Boas práticas? …
Política educativaComo têm falado tanto mal de mim nestes últimos tempos, faço finca-pé em não dizer o que de positivo resultou da actuação da Ministra da Educação em funções. Prefiro dizer o que não acho bem.
Primeiro, por detrás de muitas das medidas de política educativa tomadas estão condicionantes de natureza orçamental. Para bom entendedor …
Segundo. E o que a meu ver é muitíssimo grave! O nosso Ministério da Educação não está a conseguir implementar as suas políticas educativas! Conduzindo a realidades muito diferentes nas escolas do nosso país.
Temos escolas onde o actual estatuto do aluno está em vigor e outras onde não está. Temos escolas que tentam implementar o sistema de avaliação de professores e outras que não; temos escolas que, através dos seus órgãos de gestão, o rejeitam de uma forma activa, sob a figura da suspensão de actividades relacionadas com a avaliação de desempenho ou através da solicitação dessa mesma suspensão. Traduzindo uma situação de flagrante ruptura entre o Ministério da Educação, como responsável máximo da política educativa, e os professores nas escolas, como responsáveis pela implementação e execução das medidas dessa política educativa.
É grave Portugal meu, é mesmo muito grave. A nossa Escola Pública …
O futuroA formação é a arma com que os nossos jovens irão enfrentar o futuro.
Em Portugal o emprego do futuro será dado pelas empresas do futuro. Empresas com características diferentes da maioria das nossas tradicionais PMEs de capital e gestão familiar. Empresas “magras”, com estruturas flexíveis que lhes permitam uma fácil adaptação às constantes modificações dos mercados; que lhes permitam a sobrevivência num mercado global.
Lenta e gradualmente estas empresas estão a renovar o nosso tecido empresarial.
Empregam mão-de-obra qualificada e polivalente. Conhecimento, adaptabilidade e responsabilidade, são característicos dos seus colaboradores; formação académica conjugada com formação moral e social.
As nossas salas de aula deverão transmitir estes saberes e valores aos nossos alunos. A Escola não pode ser fácil se queremos caminhar o percurso do futuro. A formação em quantidade não deverá sobrepor-se à formação em qualidade.
A política educativa tem de caminhar neste sentido. Tem também de promover a imagem da Escola e dos professores junto das famílias e da sociedade em geral. Restituir-lhes o respeito e a importância que lhes são devidos, e que hoje se encontram muito pálidos.