Nas minhas leituras de revistas e blogs é frequente interrogar-me sobre a generosidade com que os críticos atribuem notas, classificações, galardões, …, aos CDs que comentam.
Quão generosos eles são. Tudo bons rapazes.
São 4 ou 5 estrelas, são chocs, são disques d’emoi, são diapasons, sei lá...
Ainda há dias, num DVD da série The Blues, um bluesman (falha-me agora o nome) afirmava que os críticos eram os descendentes dos gajos que crucificaram Jesus Cristo.
Questiono a razão desta mudança de atitude?
Num passado ainda bem recente, um disco excepcional perdurava. Falávamos dele e ouvíamo-lo vezes a fio. Hoje, a leviandade com que num mês se qualifica um CD de excepcional, para que nos meses seguintes não se fale mais dele, surpreende-me. A leviandade com que uma revista qualifica, todos os meses, um bom lote de CDs como excepcionais surpreende-me ainda mais.
Outro aspecto que me provoca comichão respeita à isenção e objectividade na avaliação da música.
Na DB magazine de Janeiro último, só para referir um inofensivo exemplo, Mr. Xis atribui 2,5 estrelas ao CD Guitars, de McCoy Tyner, enquanto Mr. Ypsilon o classifica com 4 estrelas; passando ao CD In these shoes, de Arturo O’Farrill & Claudia Acuña, é Mr. Ypsilon que lhe atribui 2,5 estrelas face às 4,5 de Mr. Xis.
Claro que não existem critérios quantitativos para analisar a qualidade de uma obra, seja em que actividade artística for. Mas, raios, será assim tão difícil distinguir o bom do mau ou o médio do muito bom? Ou será que as preferências musicais dos críticos estão a interferir em demasia nestas histórias de estrelinhas?
Estão, estão! Porque as habituais listagens dos melhores do ano confirmam-no. Muitas delas são simplesmente surrealistas.
Porque, ao que parece, a alguns cai-lhes o nome na lama se na sua listagem surgir o disco de Moody & Jones lado a lado com os de Evan Parker, Braxton e Vandermark.
É sempre com agrado e respeito que, nas minhas compras, sigo as recomendações daqueles que sabem ouvir jazz nas suas múltiplas orientações estilísticas. E que, independentemente das que professam, sabem reconhecer a qualidade do trabalho de músicos de diversos quadrantes.
Um bom exemplo é a votação dos melhores de 2008, no site
Jazz Logical, por um conjunto de bravos e valorosos lusitanos que percebem da poda.
Mas voltemos aos generosos críticos que, por tudo e por muito pouco, classificam com muito bom e excelente a música que ouvem. A estes sei eu o que lhes fazer. Enviá-los para as Escolas!!!
Nos dias que correm sentir-se-ão perfeitamente enquadrados!!!
O que não acontece comigo!
Continuo a reprovar alunos e a atribuir classificações em toda a escala de 0 a 20 valores. Apesar de, numa conjuntura económica à beira da deflação, já considerar as minhas classificações inflacionadas.
Sim, porque o ditado diz-nos que em terra de cegos quem tem olhos é rei. Um aluno minimamente interessado nos temas leccionados, e que trabalhe um pouquinho em casa, é Bom sem o ser. Tem as 4 estrelas asseguradas!
Mas o generoso e facilitista corpo crítico sentir-se-ia como peixe na água, e iria contribuir decisivamente para a melhoria das estatísticas educativas nacionais, gerando indicadores que nos colocariam a par da excelência educativa europeia.
Contribuindo para ilusórios picos de auto-estima e felicidade nacionais que os futuros sociais e profissionais dos nossos jovens tratariam de desmistificar. Mas, enquanto durassem…!!!
Como alguns dos meus alunos ficariam satisfeitos se vissem o professor de contabilidade analítica substituído por um crítico musical…