"…Music isn’t a style; it’s an idea…
No key, no rhythm, and no time. Just the idea itself."
Ornette Coleman to Ben Ratliff
A minha formação musical equivale a um grande e redondo zero. Não sabendo distinguir um ré de um fá, posso dizer que mete dó! Mas considero-me um excelente tocador de discos. E um bom avaliador do quanto a música pode inebriar os sentidos, permitindo-me até opinar sobre gravações e concertos que me passam pelos ouvidos.
O concerto da Exploding Star Orchestra do trompetista Rob Mazurek, no Jazz em Agosto deste ano, foi fascinante. Foi a primeira vez que travei conhecimento com a sua música. Talvez por isso as minhas expectativas tenham sido ultrapassadas. Contrariamente a uma actuação mais previsível da Brass Ecstasy de Dave Douglas (porque adquiri recentemente o CD Spirit moves), mas igualmente de muito bom nível.
No âmbito do projecto Brass Ecstasy, Dave Douglas referiu que pretende homenagear Lester Bowie e a sua Brass Fantasy. Homenagem bem explícita no título da peça Chicago Calling: Bowie, Barack and Brass, com que a banda se estreou no Chicago Jazz Festival de 2008. A formação conta com Vincent Chancey no corne francês, que tocou igualmente na fanfarra de Bowie.
Douglas fez também questão de mencionar a mensagem política subjacente à sua música, tecendo alguns comentários irónicos acerca de Mr. George W. Bush e da sua saída da Casa Branca.
Marcus Rojas utilizou uma tuba gentilmente cedida por um músico lusitano, já que a sua se havia extraviado num qualquer aeroporto. E, claro, tocou muito melhor.
Dave Douglas
Luis Bonilla
Vincent Chancey
Marcus Rojas
Nasheet Waits
Luis Bonilla & Vincent Chancey
Dave Douglas Brass EcstasyFotos da Dave Douglas Brass Ecstasy pelo PescadorA ESO de Rob Mazurek apresentou-se no anfiteatro ao ar livre da Fundação Calouste Gulbenkian com 14 músicos. Puxando pela memória, lembro-me de um vibrafone e uma marimba, um contrabaixo e um baixo eléctrico, 2 baterias e uma guitarra eléctrica. Que, numa noite limpa e com a nebulosa trompete do convidado Bill Dixon, criaram múltiplas texturas por onde evoluíram os sopros e as palavras de Damon Locks.
Ininterruptamente houve espaço para o ecletismo de estilos e para a improvisação individual e colectiva. Uníssonos, crescendos e diminuendos que revelavam cuidados arranjos, e liberdade total onde a voz e a flauta de Nicole Mitchell rasgavam a sonoridade do ensemble.
As prestações do trombonista Jeb Bishop e do vibrafonista Jason Adasiewicz, ambos membros do projecto Lucky 7s, foram brilhantes.
Não sei se tocaram certinhos e afinados. Na minha ignorância musical atrevo-me a dizer que o vocabulário e a gramática do jazz mainstream foram sistematicamente atropelados.
Free jazz? Avant-garde? Não quero saber. Porque a música fazia sentido! E era bela e viva. Pulsava. Mesmo para mim, um tradicionalista de gema e de ouvidos duros.
E digo que nunca a visualização da interacção entre os músicos no palco me ajudou tanto à percepção da música como nessa noite. Se já, e apenas tivesse ouvido a música da ESO em CD não sei se teria optado por este concerto.
Soberbo!!!
Venham mais destes.